quarta-feira, 21 de setembro de 2011


Minha sobrinha de 3 anos foi para a comemoração de carnaval na escola de
balé Norma Lilia da 108 Sul; uma turma grande, umas 15 meninas (ou mais),
todas com 3 ou 4 anos; os pais não podem assistir à aula nessa escola -
entrega-se a criança para a "tia" na entrada, antes da catraca, só podendo
voltar nos 10 min. finais; no final da aula, minha mãe, junto com outras
mães, são autorizadas a entrar para assistir a aula/comemoração. Minha
sobrinha, uma criança negra, corre até a sua avó e diz, agoniada, que está
muito apertada para ir ao banheiro, que a "tia" não ouviu seu pedido; ela
torce as pernas de tão 'apertada'. Minha mãe a leva ao banheiro e voltam
para o final da aula; nessa hora, minha mãe percebe as dificuldades que a
neta está passando: as outras meninas, todas brancas, se recusam a dar a mão
a minha sobrinha e, quando ela insiste (pois esse é o comando da
professora), chega a acontecer de uma menina ir defender a outra que não
quer tocar na minha sobrinha. Elas a olham com aquele olhar de estranheza,
como quem nunca viram uma menina negra, ou, ao menos, nunca foram obrigadas
a manter contato, tocar a mão de uma menina negra. As outras mães nada vêem,
ou, decerto, acham normal o que está acontecendo. E, enquanto todas as
meninas estão de mãos dadas obedecendo ao comando da professora, minha
sobrinha está solta, no meio da sala enorme, perdida, sem saber o que fazer.
Quando termina a aula ela está triste, diz que não gostou da aula e,
contrariando o seu hábito de criança falante, vai calada para casa.

Não sabemos se ela entendeu o que lhe aconteceu, sabemos que a "tia" não a
"enxergou" entre as várias crianças brancas, deixando-a a ponto de fazer
suas necessidades nas calças; sabemos que as outras crianças, de 3 e 4 anos,
a discriminaram, não porque crianças dessa idade saibam o que estão fazendo
(não acredito nisso), mas porque isso ainda é aprendido na sociedade em que
vivemos. Elas não foram educadas para acreditar que são iguais, ou para
conviver com as diferenças. Foram educadas aprendendo que são melhores que
as crianças negras, geralmente filhos da empregada ou crianças de rua. Eu e
minha família não sabemos o que fazer; minha mãe sugere que ela não coloque
mais os pés naquela escola, onde só dançam meninas de classe média/alta, não
obstante possamos, tal qual elas, pagar pela aula de balé. O mal-estar que
experimentamos agora, eu e toda minha família, certos de que não poderemos
defendê-la de fatos como esse que, infelizmente, podem se repetir muitas
vezes ao longo de sua vida, nos sentimos amargurados por viver em uma
sociedade, formalmente pluralista e igualitária, mas onde o preconceito
ainda reina, mudo, mas presente em cada momento de nossas vidas.

Peço aos amigos, encarecidamente, que transmitam esse desabafo ao maior
número de pessoas, pois acredito que a única maneira de modificarmos essa
ignorância secular é transmitindo a dor que sentimos, de modo a sensibilizar
as pessoas que ainda não aprenderam a respeitar os seres humanos,
independente da cor, religião, opção sexual ou condição física. Precisamos
nos humanizar, e assim humanizar nossos filhos; somos responsáveis pelo
futuro e não queremos - me recuso a acreditar no contrário - que a
deseducação, que a ignorância e o desrespeito preponderem em nossa
sociedade.



Liene Pinto
Brasília-DF

Um comentário:

  1. eu acho que o brasil tinha que ser mais justo com todos os brasileiros.porque nos não merecemos,nos merecemos um pais que não haja discriminação que quando você sair de sua casa você seja uma grande pessoa que mude o brasil e nunca mais teremos discriminação racial.

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